quinta-feira, 26 de março de 2015

Crianças diferentes na escola

Os meninos com problemas de desenvolvimento precisam apenas de apoios especiais, na mesma escola.

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Se uma criança for míope, ninguém contesta que frequente a escola, apesar de, sem óculos, ter dificuldade na aprendizagem. Os meninos com problemas de desenvolvimento precisam apenas de apoios especiais, na mesma escola.

Depois de um período em que as crianças com problemas de comportamento ou desenvolvimento não entravam no sistema educativo ou saíam dele precocemente, passou-se para uma fase da chamada ‘integração’, na qual as crianças com problemas deveriam ‘fazer um esforço’ para serem mais parecidas e acompanharem as consideradas ‘normais’. O passo seguinte parte para um novo conceito: a inclusão. Admitir que o universo da população é composto por seres humanos com diferentes características de personalidade, temperamento, competências, dons e talentos e que os ecossistemas, como a Escola, devem incluir todos, salvo raras e admissíveis exceções. Dando os apoios necessários a cada um, mas estimulando o que a partilha de saberes, experiências, vivências e aspetos sociais pode trazer de bom para cada um e para todos.
Se uma criança for míope em grau moderado ou elevado, ninguém contestará que frequente a escola, apesar de, sem óculos, ela ter grandes dificuldades no processo de ensino/aprendizagem. Além dos óculos, os professores tentarão tudo para que a sua deficiência não resulte emhandicap, como, por exemplo, coloca--lo na fila da frente.
Desta vez vou abordar uma outra situação: as chamadas doenças do espectro do autismo. Com a discussão que tem havido sobre eventual redução de apoios socioeducativos na educação especial, creio ser importante relembrar uma situação comum, que engloba várias doenças, mas que se revelam por sintomas e sinais parecidos. Para que as crianças possam beneficiar de todos os apoios necessários, no sentido de uma escola verdadeiramente inclusiva.
Autismo
Usa-se e abusa-se do termo ‘autista’. Se alguém não liga ao que dizemos rotulamo-lo de “autista”. Se um político, num debate, ignora o que o interlocutor está a dizer, lá o classificamos: “parece autista”. Os jovens são ‘autistas’ porque não ligam às vezes ao que os pais dizem. Um exagero. Um erro. Uma leviandade.
Por outro lado, tudo o que mexe é hiperativo e qualquer um que tenha momentos de distração poderá ter, com grande probabilidade (pela parte dos leigos, esclareça-se), um «défice de atenção».
Talvez valha a pena separar o trigo do joio. Há situações de autismo, assim como há síndromas de hiperatividade, com ou sem défice de atenção. E estas situações, a par das chamadas síndromas disléxicas e outras, devem ser diagnosticadas e tratadas atempadamente, para bem de todos. Mas daí a cair no exagero da rotulação vai um passo, inadmissível.
A palavra autismo vem do grego, da palavra «auto», significando «fechado sobre si mesmo». Assim, o autismo caracteriza-se por uma dificuldade extrema no relacionamento interpessoal e social, associado a problemas na comunicação verbal e não-verbal, grande atração por rotinas, movimentos e atividades repetitivas e monótonas, e uma relativa estreiteza de interesses, com grande stresse quando as rotinas se modificam.
Assim como há uma grande dificuldade ou mesmo impossibilidade, na criança autista, de se relacionar com os outros, também está comprometido o reverso da medalha – a criança não entende adequadamente os sinais que lhe são transmitidos, da fala à expressão facial e até a um gesto ameaçador ou um de afeto, não os sabendo interpretar, nem revelando interesse por eles.
Este grande grupo de situações – em que algumas crianças manifestam mais uns aspetos do que outros –, incluem entidades mais conhecidas atualmente, como o síndrome de Asperger e o síndrome de Rett, entre outras.
No conjunto das crianças, e tendo em conta a dificuldade em conseguir agrupar todas estas características no mesmo saco, pode estimar-se que seis em cada mil apresentam, em cada ano, sinais de que podem sofrer de uma destas situações. Reportando estes dados para Portugal, poderíamos dizer que todos os anos cerca de oitocentas novas crianças apresentarão alguma patologia desta área. Os rapazes têm uma incidência muito mais elevada: cerca de 4 a 5 vezes mais do que as raparigas, chegando a ser superior em alguns casos particulares, como o síndrome de Asperger.

Sinais e sintomas
As situações do «espectro do autismo» têm quatro grandes áreas de problemas:
• dificuldade na interação social e nas relações interpessoais;
• problemas acentuadas na comunicação – verbal e não verbal;
• comportamentos repetitivos, interesses obsessivos e estreitamento da visão da vida e das atividades;
• insegurança face a alterações de rotina;
Se pensarmos que estas áreas são prioritárias para nos sentirmos bem, para comunicar e nos relacionarmos – desde a família à sociedade –, poderemos entender bem que são deficiências que, facilmente, se podem tornar em handicaps, alterando profundamente a qualidade de vida da criança e dos pais, designadamente o seu futuro.
Mas atenção: estas áreas são muito vagas e podem ser sub ou supravalorizadas, conforme as circunstâncias e as pessoas. Muitas crianças relacionam-se mal com pessoas que não conhecem. Outras estão alheadas a ver televisão e não ouvem os pais chamar – até podem ter uma otite serosa e ouvir mal. Outras desviam o olhar quando sentem que fizeram asneiras e não querem encarar os pais. Ainda podem existir atrasos da fala normais e crianças que comunicam de formas a que muitos adultos não têm acesso. Finalmente, há idades em que os movimentos repetitivos e estereotipados são securizantes. Se se acabou e mudar de escola ou de casa, ou se se sofreu um trauma como uma hospitalização prolongada, podem apenas representar uma defesa.
As crianças com autismo têm uma característica: desinteresse pelas outras pessoas, não respondendo quando se chama pelo seu nome e evitando o contacto «olhos nos olhos».
A falta de compreensão das diversas formas de expressão que acompanham a fala – como a expressão visual, as rugas da cara, o sorriso (ou a zanga) e outros pormenores que nos permitem ver se uma pessoa está a brincar ou a fala a sério, se está alegre ou zangado, ou preocupado – leva a que a criança se feche num mundo dela, com total falta de empatia.
Muitas vezes, essa dissociação entre si próprios e a quem se referem quando falam deles leva a que, em vez de dizer «eu», digam «o Manel», «o Vasco», ou seja, se refiram pelo seu nome em vez de ser na primeira pessoa, como fator revelador de distanciamento até em relação a si próprios.
Para além da atração pelos movimentos repetitivos e rotativos, há uma diminuição da sensibilidade à dor, mas uma sensibilidade exagerada ao som, toque ou outros estímulos sensoriais, o que leva a um desagrado quando os pais (e especialmente outras pessoas) lhes tentam pegar, acariciar ou dar mimo.
Na síndroma de Asperger, por exemplo, as crianças revelam uma grande capacidade de aquisição de conhecimentos, podendo chegar quase à exaustão de um assunto, mas falta-lhes muitas vezes o doseamento emocional que leva a adequar o que se sabe ao que é realmente importante e pertinente.
Quais as causas?
Ainda não se conseguiu chegar a uma conclusão sobre as causas dos síndromes autistas, provavelmente porque haverá um conjunto de doenças diferentes, com causas também diferentes.
Os estudos da neurociência revelaram alterações na composição e no funcionamento do cérebro. Outros estudos referiram haver uma deficiência dos neurotransmissores, substâncias – como a serotonina – que facilitam a passagem dos estímulos e da informação entre os neurónios.
Uma coisa é certa: sejam quais forem as causas destas situações, os pais não têm qualquer culpa. Nem quanto à herança genética que transmitiram aos filhos, nem quanto à educação que lhes deram, práticas que tiveram ou eventuais erros e lacunas que (como todos nós) cometeram. É fundamental sublinhar isto vezes sem conta.

O que há a fazer?
 Com um tratamento e abordagem adequadas, há grande probabilidade de a criança poder evoluir para uma vida com maior autonomia. A adolescência é um período crítico, por razões óbvias. Face a um leque de sintomas desta ordem, há depois testes mais específicos que podem auxiliar ao diagnóstico – mas a visão multidisciplinar, que passa pelos neuropediatras, neuropsicólogos e psicólogos – , é essencial. A intervenção, depois, de um terapeuta da fala, de especialistas de psicomotricidade e outros técnicos destas áreas é essencial. Os terapeutas do âmbito da neuropsicologia, psicomotricidade e comunicação, entre outros, abriram novos horizontes para que, mesmo não se podendo modificar o funcionamento cerebral ou o «erro» que existe no «sistema operativo», se possam colmatar essas lacunas com aprendizagem de competências e de desempenhos. Uma coisa é certa: quanto mais cedo o tratamento começar, maiores as probabilidades de êxito e o tratamento só pode ser precoce se o diagnóstico for, ele mesmo, também precoce.
E se o apoio educativo e a inclusão escolar não faltarem, claro....
 Pediatra Mário Cordeiro, in Pais&Filhos

quarta-feira, 25 de março de 2015

A depressão das crianças


É verdade que as dificuldades apuram, muitas vezes, o engenho. Não tanto porque o sofrimento que elas não deixam de trazer seja recomendável mas, antes, porque quando a dor não é nem excessivamente aguda nem extensa em demasia acaba por mobilizar os recursos saudáveis que temos ao nosso dispor. É claro que nunca há males que vêm por bem! E é verdade que uma formulação como essa tem qualquer coisa de triunfal que acaba por ser um bocadinho batoteira. Em primeiro lugar, porque a sabedoria nos ajuda a compreender, por antecipação, os perigos que nos ameaçam, levando a que os evitemos. E, em segundo lugar, porque sempre que agradecemos as dores menos os aproveitamos com a humildade de quem vê nelas uma oportunidade para aprender. Seja como for, também para muitos pais, os males do seu crescimento nunca terão vindo por bem. Mas sem eles, muito provavelmente, nunca teriam reunido as competências com que a “escola da vida” lhes deu garra e perseverança, e os terá ajudado a ser acutilantes e afoitos para se tornarem mais guerreiros, mais aventureiros e vencedores.

Se é verdade que a vida nunca é cor de rosa para ninguém é de esperar que, apesar disso, todos os pais queiram poupar aos filhos as experiências mais cinzentas do seu crescimento, por mais que elas possam ter dado um empurrãozinho fundamental para que eles sejam, hoje, como são. Mas, sendo assim, o grande desafio de todos os pais passa por não deixarem de dar colo, por não deixarem de proteger os filhos (nomeadamente, protegê-los das dores mais preponderantes da sua própria infância) e, ao mesmo tempo, por lhes criarem as condições para que eles desenvolvam competências para o insucesso sem as quais talvez não se conquiste nem a autonomia nem a robustez que os tornem fortes e audazes. Por outras palavras: como se pode conquistar aquilo que algumas dores trarão sem que se tenha de sofrer com elas? Será esta, provavelmente, a quadratura do círculo que torna a educação dum filho desafiante e complexa. E a pergunta que fica será: como é que isso se faz? Com regras claras, com um permanente incentivo à autonomia e com uma relação mais verdadeira com os insucessos, por exemplo.

Esta ideia tão protetora que os pais acabam por ter em relação ao crescimento das crianças é compreensível. E ajuda-nos a perceber que, se as protegem quase demais, talvez eles tenham tido muito mais experiências infantis de sofrimento do que as suas dores declaradas levariam a supor (e que não terão sido, todas elas, compostas por acontecimentos com um formato XXL de dor, mas que talvez tivessem a ver com incidentes, mal-entendidos, falhas e omissões dos seus pais que eles próprios não terão valorizado). Mas onde nos leva este ideal tão anti-depressivo de crescimento? Será razoável para o crescimento duma criança? E, por mais que a aspiração dos pais nos toque a todos, pode uma criança crescer à margem dos riscos ou das dores? E será que quanto mais as protegemos da dor mais as tornamos felizes? Receio que não. Voltemos à “fórmula” anterior: a mim parece-me que quanto mais somos omissos nas regras (e esquecemos que os pais bonzinhos são pais suficientemente maus), quanto mais condescendemos com a falta de autonomia das crianças (a que os pais chamam preguiça, como se fosse ela um “defeito de fabrico”), e quanto mais pomos “pó de arroz” nos seus erros e nas suas falhas (como se qualquer dor mais parecesse um traumatismo) mais acabamos a criar condições para que as crianças se deprimam. Porquê? Porque apesar de lhes darmos recursos fantásticos para o seu crescimento, talvez as poupemos às oportunidades de, com pequenas dores, elas os lapidarem e desenvolverem. Chegamos, assim, a um dilema: por falta de “dores do crescimento”, talvez não deixemos de lhes criar uma “imunodeficiência adquirida” à dor. E − sim! − em vez de as tornarmos robustas, ajudamos, mais do que seria o nosso desejo, para que se tornem frágeis. Mas − que isso fique claro − isso deve-se mais à ideia de que os bons pais nuÉ verdade que as crianças.
 
Mas será que a fragilidade das crianças é uma fatalidade, como se elas estivessem condenadas a estar tristes? Claro que não! E é aqui que nos devemos centrar: por mais que erremos, muitas vezes, como pais, as crianças só parecem... crianças, em relação a tudo aquilo que se passa nas suas vidas, não tanto porque vivam distraídas mas, antes, porque os recursos saudáveis que os pais lhes vão fornecendo as torna autênticos “todo-o-terreno”. Não digo que sejam invulneráveis ao sofrimento. Mas que, apesar das nossas falhas, elas não se partem. Mais: os erros dos pais são, até, o sal do crescimento das crianças.

Mas, se é assim, porque é que se fala, como nunca se falou, da depressão das crianças? É verdade que todos os anos se registam muitos milhares de novos casos psiquiátricos de depressão nas crianças? E que isso se deva ou ao número de divórcios, ou à falta de famílias alargadas ou ao consumo de videojogos, como há quem afirme? Tentamos ir, de novo, pela sensatez. Não é verdade que hoje as crianças se deprimam mais! O que se passa é que a abordagem psiquiátrica do sofrimento das crianças, isso sim, tem ganho a preponderância que, felizmente, noutros tempos não existia. E, com mais rigor, que a medicalizacao psiquiátrica das crianças tem manifestado saltos exuberantes que parecem não merecer ponderação e que a hospitalização psiquiátrica de crianças começa a merecer uma aragem cada vez mais assustadora. Como se, hoje, o sofrimento das crianças existisse como uma realidade surpreendente e enigmática (quase ao nível duma epidemia atípica), sem que se meçam as consequências que a dor depressiva foi tendo em todas nas gerações dos seus avós e dos seus pais, por exemplo, e que fez com que muito deles a expressassem por perturbações de comportamento gravíssimas e por inibições cognitivas terríveis (o que levou, por exemplo, ao longo dos anos, a presumir-me que havia crianças inteligentes e crianças burras, sem nunca se perguntar em que medida as dores que elas iam enquistando não terão representado uma verdadeira “força de bloqueio” para as competências afetivas e cognitivas que não deixavam de ter).

Por outras palavras: é verdade que há muitas crianças que se deprimem; é verdade que os pais são, hoje, mais competentes como pais do que as suas próprias famílias terão sido (e, por isso, há menos crianças a deprimir, e menos haveria se os pais tivessem menos medo de ser pais e mais escutassem quem os ajude a sê-lo); é verdade que os pais são os verdadeiros anti-depressivos dos filhos (mas não deixa de ser verdade que as famílias mais alargadas de antigamente, por mais que fossem preciosas, não resolviam a dor depressiva da omissão e dos maus tratos de muitos pais, muito mais graves do que aqueles que observamos hoje); e é verdade que as crianças se estragariam menos se trabalhassem menos e vivessem com menos stresse e com menos compromissos (e que, até nisso, os pais podem dar uma ajudinha preciosa). Mas, apesar disso, deixem-nas em paz! E lembrem a quem fala da depressão como um perigo que se cura com gotinhas que a tristeza é um formidável anti-depressivo. Não a tristeza crónica, claro. Mas aquela que todas as pessoas de coração grande, de sangue quente e de sensibilidade à flor da pele não deixam de ter. A tristeza que precisa de ser falada, e a que precisa do corpo, em silêncio, de quem gosta de nós, bem perto do nosso (por dez minutos, que seja). A tristeza que resulta de tantas pequenas-coisas dum dia-não que, quando se vai para a descrever, dá um jeito precioso que haja quem nos sinta em si e que fale por nós. 

Querem, então, filhos capazes de estar tristes e menos deprimidos? Deixem, por favor, de ser pais assustadiços. Façam deles filhos únicos, por meia hora, todos os dias. Nunca comecem todas as conversas, em que vão à procura de os conhecer melhor, com um novo “como foi a escola?”! Deixem-nas brincar, deixem-nas correr, deixem-nas sujar-se, deixem-nas falar e deixem-nas fantasiar! Obriguem-nas a ser crianças em vez de as quererem como jovens tecnocratas de sucesso. Deixem-nas errar e zanguem-se sempre que elas façam de “certinhas”. Lembrem-se do jeito que teria dado terem tido pais a lembrarem-se da sua própria infância quando falam com os filhos. Sintam-nos, primeiro; e imaginem-nos, depois. E arrisquem (arrisquem!) nos palpites que tenham acerca do que se passa com as crianças quando se trata de falar. Mas falem, por favor! E, já agora, nunca se esqueçam: se há aspetos preocupantes na vida das crianças o maior de todos será o lado medricas (e depressivo, até) de muitos pais.

Eduardo sá, in Pais&Filhos


Como melhorar a concentração?





A Falta de atenção e concentração são as queixas mais frequentes, de pais e professores.

Estas dificuldades, estão muitas vezes relacionadas com a pouca motivação para as matérias escolares e com o tipo de ambiente em que o estudo decorre.

Existem vários fatores que podem influenciar a aquisição da aprendizagem: os pensamentos da criança, estão muitas vezes, direcionados para outro tipo de problemas, tais como, conflitos com um colega ou com um familiar, estar ansioso com o teste que vai ter a seguir, a preocupação com um familiar que está doente, o barulho na sala de aula algo que impede a sua concentração. Sendo necessário avaliar o que está a comprometer a aprendizagem da criança. 

A atenção e a concentrado são indispensáveis para assimilar a matéria. Mas, como se pode ter motivação para estudar se as crianças muitas vezes nem sabem a melhor forma de o fazer, ou seja, perceber qual é o método para memorizar as aprendizagens, para conseguir melhor rendimento e menor cansaço. Sempre que se evidenciem sinais de cansaço. é preferível fazer intervalos para descansar, por forma a melhorar o processo de memorização. 

As estratégias que devem ser utilizadas no estudo e que facilitam a memorização:

- Perceber a que horas é melhor estudar. Às vezes é preferível a criança estudar pouco tempo, mas no tempo em que está a estudar, deve-se reforçar a atenção- ir fazendo intervalos quando sente cansaço; 
- Antes de decorar qualquer matéria, é essencial que a criança compreenda as temáticas;
- Perceber como é que a criança estuda melhor, se é a fazer resumos, a ler em voz alta, fazer esquemas ou a sublinhar a matéria;
- Pedir a alguém para lhe fazer perguntas ou fazer fichas após ter estudado uma determinada matéria, é importante para que assim perceba, o que lhe falta estudar melhor; 
- Organizar as matérias por dias de estudo, não estudar só quando há testes e, assim tem tempo para esclarecer as dúvidas com o professor;
- Organizar o estudo com tópicos, nas matérias segundo a sua importância. Perceber quais os conteúdos a que o professor deu mais importância na sala de aula;
- Usar mnemónicas para simplificar a assimilação da matéria, isto é, criar palavras ou frases com as primeiras letras de cada palavra chave – método estudo que consiste numa mnemónica - P.L.E.M.A - Pré-leitura; Leitura; Esquematização; Memorização; Autoavaliação.

Método P.L.E.M.A:
1) Pré-leitura - Ler a matéria toda de forma rápida para ficar com uma noção geral do tema;
2.) Leitura mais aprofundada com muita atenção da matéria, anotando ou sublinhando as coisas mais importantes;
3.) Esquematização – fazer um resumo ou esquema da matéria para facilitar a memorização;
4.) Memorização – Separar a matéria por títulos importantes para ajudar a reter o que se estudou;
5.) Autoavaliação – Recapitular a matéria, seja oralmente ou escrever o que se estudou por temas. Ficando assim, com melhor consciência, não só do que sabe, mas do que lhe falta estudar melhor.

Condições fundamentais para criar o local de estudo:

*Juntar o material que vai precisar para estudar; 
*Arranjar um local em casa para realizar os T.P.C`S e estudar, onde não tenha nada para a fazer ou distrair ex. T.V. ligada, pessoas a entrar/sair ou a conversar;
*Ter boa luz e uma cadeira confortável.

sexta-feira, 20 de março de 2015

O uso do teclado afecta a escrita


Uma pesquisa americana sugere que o uso excessivo de teclados e ecrãs sensíveis ao toque ao invés de escrever à mão, com lápis e papel, pode prejudicar o desenvolvimento das crianças.
A neurocientista cognitiva Karin James, da Universidade de Bloomington, nos EUA, estudou a importância da escrita à mão para o desenvolvimento do cérebro da criança.
Para chegar à conclusão de que teclados e telas podem prejudicar este desenvolvimento, a invetsigadora estudou crianças que ainda não sabiam ler - que poderiam ser capazes de identificar letras mas não sabiam como juntá-las para formar palavras.
No estudo, as crianças foram separadas em grupo diferentes: um grupo foi treinado para copiar letras diferentes enquanto outras trabalharam com as letras usando um teclado.
A pesquisa testou a capacidade destas crianças de aprender as letras; mas os cientistas também usaram exames de ressonância magnética para analisar quais as áreas do cérebro que eram activadas e, assim, tentar entender como o cérebro muda enquanto as crianças se familiarizavam com as letras do alfabeto.
O cérebro das crianças foi analisado antes e depois da experiência e os cientistas compararam os dois grupos diferentes, medindo o consumo de oxigénio no cérebro para mensurar a sua actividade.
Os pesquisadores descobriram que o cérebro responde de forma diferente quando aprende através da cópia de letras à mão de quando aprende as letras digitando-as num teclado.
As crianças que trabalharam copiando as letras à mão mostraram padrões de activação do cérebro parecidos com os de pessoas alfabetizadas, que podem ler e escrever. Este não foi o caso com as crianças que usaram o teclado.
O cérebro parece ficar «ligado» e responde de forma diferente às letras quando as crianças aprendem a escreve-las à mão, estabelecendo uma ligação entre o processo de aprender a escrever à mão e o de aprender a ler.
«Os dados do exame do cérebro sugerem que escrever prepara um sistema que facilita a leitura quando as crianças começam a passar por este processo», disse James.
Além disso, desenvolver as habilidades motoras mais sofisticadas necessárias para escrever à mão pode ser benéfico em muitas outras áreas do desenvolvimento cognitivo, acrescentou a pesquisadora.
As descobertas da pesquisa podem ser importantes para formular políticas educacionais.
«Em partes do mundo há uma certa pressa em introduzir computadores nas escolas cada vez mais cedo, isto (esta pesquisa) pode atenuar (esta tendência)», disse Karin James.
Notícia publicada dia 20/3/2015 no díáriodigital 

Crianças que sentem medo de se separar dos pais?


Porque sentem as crianças medo da separação dos pais?

O medo e a ansiedade de separação, fazem parte do desenvolvimento normal da criança, mas muitas sentem grande ansiedade de separação, porque se sentem sós quando os seus pais ou alguém afetivamente importante, ou seja, as suas figuras de referência não estão próximas da criança, mesmo nos momentos em que estão na presença  de outras pessoas, sentem-se perdidas e sozinhas.   

A criança necessita de ter a representação mental dos pais, de ter construído a sua imagem interna, para conseguir imaginá-los, quando os mesmos não podem estar presentes fisicamente. Para isso, a criança precisa de ligações afetivas fortes e significativas para construir essa representação e, aos poucos ir explorando o mundo que a rodeia.

O medo de se separar dos pais ou de outra figura afetiva significativa, não deve ser encarado por si só como indicador de patologia emocional, porque isso faz parte do normal desenvolvimento da criança. Mas, é esperado que os seus medos desaparecerão à medida que a criança cresce. Contudo, pode evoluir para uma perturbação da Ansiedade de separação, no caso de a criança apresentar ansiedade ou reações de medo atípicos, em função do estádio em que se encontra e comprometa o seu desenvolvimento saudável de adaptação.

Como se caracteriza a Perturbação da Ansiedade de Separação?

As crianças com perturbação da ansiedade de separação, estão constantemente a requerer atenção, manifestam angústia e medo intenso, tanto de separação como com a ideia de separação das figuras de referência. São indicadores desta perturbação, o medo em estar sozinha, dificuldades no sono, receio de ir para a escola e dificuldades de interacção social. Estima-se que existem cerca de 1 a 5% de crianças com este tipo de perturbação.

A ansiedade de separação infantil tem maior incidência entre os 5 e os 12 anos de idade
É importante diagnosticar este tipo de perturbação sempre que os sintomas persistam, com o objetivo de avaliar a criança e ajudá-la a superar os seus medos, facultando estratégias que possibilitem um desenvolvimento saudável.

Os medos podem ser reais ou imaginários, os mais frequentes são:

Até aos 6 meses - medo de luzes e ruídos fortes, receio de perder o aconchego;  
Dos 6 aos 12 meses – medo de desconhecidos, receio da criança em se separar dos pais;
Até aos 2 anos – A criança mantém o medo de separação dos pais e de ser abandonada, receio de estar em sítios desconhecidos, medo de animais;
Entre os 3 e 4 anos – Medo de máscaras e do escuro, continua a sentir receio em se separar dos pais e a ter medo de animais;
Aos 5 anos – Medo de ladrões, mantém receio de separação dos pais e a ter medo de animais;
6 anos -  Medo de monstros, bruxas, do escuro, trovoadas  e de ficar ou dormir sozinho. Continua o receio de separação dos pais;
Entre os 7 e 8 anos – Medo do escuro, medo quando vê alguns filmes ou notícias trágicas, medo de seres sobrenaturais, mantém o temor em ficar sozinho.
Dos 9 aos 13 anos – Medos relacionados com a morte, receio das discussões dos pais, medos sobre ocorrências na escola, receio sobre a sua aparência física.

Em caso de a criança sentir determinados medos fora do período considerado normal, é importante ser realizada uma avaliação quando: 

1.Os seus medo forem constantes e excessivos;
2.As reações da criança possam comprometer as suas actividades diárias;
3.Causam sofrimento à criança e os seus sintomas preocupam os pais;
4. Não existe razão aparente para os seus medos.

Como ajudar a lidar com o medo?

*Quando os pais têm de se separar fisicamente da criança, devem incentivá-la a escolher um brinquedo, um peluche ou uma mantinha para levar com ela. Estes objetos transmitem-lhes segurança, por proporcionar em à criança a representação mental das figuras de referência.

*Os pais devem ser afetuosos e manter uma postura tranquila com a criança nos momentos de separação.

*Ajudá-la a entender que existe um tempo para tudo. Há momentos em os pais podem estar com os filhos, mas existem outros em que têm de ir trabalhar e que não podem estar presentes, mas que voltam, logo que possível para brincar com ela.

*Conceda-lhe espaço, para poder expressar-se livremente. Dê importância aos seus sentimentos e opiniões, tudo isso, proporciona-lhe sentimentos de segurança;

*responsabilize-a quando não realiza as tarefas/atividades da sua competência ou quando não cumpre as regras. Mas não esqueça de a elogiar sempre que as executa. Permitindo assim, que a criança desenvolva melhor consciência das suas atitudes aumente a sua autoestima e autoconfiança;

*Desenvolva a sua capacidade de iniciativa e a autonomia, sempre que possível pergunte-lhe o que gostava de fazer ou como pensa resolver determinada situação;

*A criança deve ter rotinas, o seu quarto deve estar organizado de forma harmoniosa e oferecer segurança.

O diagnóstico precoce e o acompanhamento, reduzem as consequências inerentes neste tipo de perturbação e, consequentemente proporcionam melhor qualidade de vida, não só à criança como aos próprios pais.

* ver artigo - Medos dos 6 meses aos 13 anos

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pai Para Sempre!



Um pai de verdade nunca será terceiro, nem é ausente, é precioso nos mais pequenos gestos, é firme e sereno, é sóbrio, é justo e arrojado, terno e bondoso, e nem mesmo quando se afasta fica ausente.
1 - Ao longo da história, as famílias foram sendo machistas e matriarcais. A mãe seria, formalmente, o número dois da hierarquia familiar, embora fosse o elemento preponderante na educação dos filhos. O pai respondia pelos recursos económicos e pela lei da família, embora fosse um número um, realmente ausente nos momentos preponderantes da vida das crianças. Em rigor, as crianças tinham dois pais mas nunca usufruíam de ambos em simultâneo e por inteiro. Apesar disso, o pai sempre se acomodou a essa função de elemento de segunda necessidade para o desenvolvimento das crianças: às vezes, porque era colocado, pela mãe, longe da relação com os filhos; às vezes, porque se excluía dela, tornando-se ausente.
O século XX transformou, profundamente, o lugar do pai. As crianças foram morrendo menos no primeiro ano de vida e, por isso, as gravidezes diminuíram. Os métodos contraceptivos tornaram-se mais eficazes As mães passaram a ter uma vida profissional e muitos pais passaram a reclamar mais vida familiar.
2 - O pai é importante para o crescimento das crianças? É. E se muitas mulheres incentivam a «maternalização» do pai (repartindo com ele a educação dos filhos), outras continuam a exigir para si um protagonismo exclusivo que o coloca, invariavelmente, como terceiro na relação mãe/filho.
Ora, o pai – um pai de verdade – nunca será terceiro. Nem é ausente. É precioso nos mais pequenos gestos. É firme e sereno. É sóbrio. É justo e arrojado. Terno, empreendedor e bondoso. E nem mesmo quando se afasta fica ausente. É pai. Para sempre.
3 - Mas há pais que se ausentam e, com isso, magoam um filho. Haverá – de forma simplista – três formas de um pai se tornar ausente para os seus filhos: quando morre, logo que se demite e sempre que se afasta.
Há pais que morrem em vida, devagarinho. Serão, entre todos, os mais dolorosamente ausentes. Acompanham a vida dos filhos, desde sempre. Mas desconhecem-nos. Demitem-se de lhes ler o coração ou de se colocar, por instantes que seja, no lugar deles. Imaginam valer pelos bens que transmitem e nunca pelos sonhos que conquistam (esquecendo que os pais mostram um caminho sempre que o percorrem, nunca se o indicam). Mas morrem um bocadinho se não abraçam. Morrem quando não brincam. Morrem sempre que decepcionam. E são tantas as decepções que os seus gestos acumulam que, quando morrem de facto, os filhos atestam um óbito (mais que desmoronam num choque). E, ao morrerem, deixam a pior de todas as saudades: a saudade pelo que não se viveu. Não são pais pelos gestos que dão mas por tudo o que os filhos desejavam que dessem.
4 - Outros pais tornam-se ausentes quando se separam. Ao contrário do que se diz, não são, por isso, piores pais (embora alguns destes só despertem para os seus deveres de pais com o divórcio). E, se bem que muitos sejam, escandalosamente, descriminados pelo género sexual, quando se trata da atribuição do poder paternal dos seus filhos, muitos divórcios são amigos doutros pais: atribuem-lhe os filhos pelo tempo que, de modo próprio, nunca reivindicariam (tornando-os mais presentes, por dentro, depois de se tornarem, realmente, ausentes, por fora).
O grande problema dos pais de fim-de-semana é que se sentem tão pouco pais que imaginam valer mais pela benevolência de Pai Natal do que por eles próprios. Daí que desde o circuito das pizzarias, nos centros comerciais, até à forma como competem pelo amor dos filhos, em troca de uma t-shrt ou de outros ténis, tudo vale. E, pior, sempre que não são telepais, o exíguo espaço de tempo que compartilham com os filhos, empurra-os para a função de amigos mais velhos, mais ou menos demissionários (quando se trata de definir regras ou limites) que é tudo o que um pai não deve ser.
Alguns destes pais tornam-se ausentes por fora e por dentro. A sua ausência parece legitimá-los nas omissões em relação a momentos fundamentais da vida dos filhos. Falham nas alturas em que a sua presença seria imprescindível. Exigem e intimidam, como se todos os direitos que reclamam não se devessem iniciar em idênticos deveres. Na verdade, não são pais. São, simplesmente, progenitores.
5 - Ora, o pai – um pai de verdade – nunca será terceiro. Não é ausente. Nem amigo ou progenitor. É precioso nos mais pequenos gestos. É firme e sereno. É sóbrio. É justo e arrojado. Terno, empreendedor e bondoso. E nem mesmo quando se afasta fica ausente. É pai. Para sempre.

Eduardo Sá, in Pais&Filhos

quinta-feira, 5 de março de 2015

Crianças do 1º ciclo "trabalham" mais do que os adultos


Muitas crianças portuguesas entre os seis e os dez anos trabalham como alunas tanto ou mais do que os adultos, com oito horas diárias na escola a que muitas vezes acrescem trabalhos de casa "repetitivos e inúteis", defendem especialistas.

"A vida das crianças a partir dos seis anos não pode funcionar só a partir da escola. A escola é muito importante, mas a educação informal e os momentos de lazer e o brincar são fundamentais", argumenta Maria José Araújo, investigadora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto.
Opinião idêntica revela o pediatra Mário Cordeiro, para quem as crianças trabalham mais do que os adultos: "Qualquer sindicato das crianças, se existisse, nunca permitiria tamanha carga horária".
Para Maria José Araújo, os TPC, a existirem, devem ser feitos na escola, eventualmente no apoio ao estudo e nada mais, até porque "representam muito em termos de tempo que ocupam, mas muito pouco em termos de estímulos cognitivos".

"A cultura escolar sobrepõe-se à cultura lúdica", refere Maria José Araújo, que lamenta que o tempo livre das crianças seja invadido pela escola, não deixando que a criança possa descansar e escolher o que fazer.

Vendo o tempo médio de trabalho de um adulto, entre 37,5 a 40 horas semanais, percebe-se que muitas crianças trabalham no seu ofício de alunas tanto como um trabalhador adulto. Contudo, enquanto o trabalho profissional dos adultos é seguido de descanso para a maioria das pessoas, o trabalho escolar é cada vez mais desenvolvido dentro e fora da sala de aula, nota a investigadora, em declarações à agência Lusa.

O tempo para brincar, descansar e preguiçar é, segundo os especialistas, subvalorizado. Trata-se sobretudo da forma como as atividades são estruturadas, já que mesmo as atividades de enriquecimento curricular são pensadas em termos de escolarização.

"O ensino formal é muito importante e devemos estimular as crianças para isso. Mas depois de cinco horas de atividade letiva, é preciso descansar e brincar. As outras atividades que as crianças realizem devem ter uma metodologia lúdica", defende.

Atualmente, a escola e a família parecem ter esquecido que a brincar se "aprende muito": "as crianças não brincam para aprender, aprendem porque brincam. Brincar é viver, para as crianças. É necessário respeitar a cultura lúdica e as culturas da infância".

Repetir em casa o que se fez na escola, prolongando o tempo de trabalho escolar, é um dos erros que se tem vulgarizado, defende.

"Os TPC [trabalhos para casa] são muitas vezes repetitivos e inúteis. Meninos de seis e sete anos andarem a repetir letras e fichas, com o argumento de que eles gostam e precisam, devia ser proibido, como acontece já nalguns países", sustenta Maria José Araújo.

Contudo, a investigadora diz que é necessário distinguir entre estudar e fazer TPC: "Estudar é importantíssimo e deve ser ensinado e incentivado. Deve ser mostrado isso às crianças. Mas estudar tem de ter a adesão voluntária de quem o faz. Já os TPC repetitivos podem ajudar a mecanizar, mas afastam a criança do sentido e do valor do conhecimento".

"Na verdade, se os TPC, tal como os conhecemos, ajudassem as crianças a ter sucesso escolar já se teria notado", indica, sugerindo que se deve antes ajudar as crianças a compreender o significado do conhecimento e das diferentes formas de aprendizagem. "Saber não é só repetir e há muitos educadores que apostam mais nesta versão", defende.

Também para o pediatra Mário Cordeiro, a escola, onde os meninos permanecem tanto tempo, tem a obrigação de ensinar "sem invadir o espaço-casa, onde as crianças devem estar sem pressões".

"Os TPC diários, na versão 'mais do mesmo', são uma invasão da privacidade, na pior hora possível para a família e quando o aluno não tem capacidade de resposta, originando stress familiar e pessoal. Deviam ser abolidos", defende Mário Cordeiro.

Por Paula Mourato, in Diário de Notícias 5/3/2015

terça-feira, 3 de março de 2015

Nova geração pouco preparada


A CRENÇA DE QUE A FELICIDADE É UM DIREITO TEM TORNADO DESPREPARADA A GERAÇÃO MAIS PREPARADA 
*Artigo de Eliane Brum - Revista Época, Brasil.




Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.



Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bom que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.


Por Eliane Brum in Revista Época