sexta-feira, 24 de abril de 2015

Os meus, os teus e os outros

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Qualquer casamento é, realmente, para toda a vida. Porque ocupa muitas memórias e porque condiciona, por mais que se não queira, todos os gestos amorosos que se terão a seguir.

1.Qualquer casamento (mesmo que não dure) é para toda a vida. Não é mau que seja assim. Mas é difícil. Muito difícil! Porque, se todos sabemos que sempre que namoramos, todos os dias, casamos mais um bocadinho, é difícil ter um coração que saltita, compromissos profissionais, uma agenda familiar, um corpo que se cansa ou se revolta, as actividades extra-curriculares, os trabalhos de casa, os banhos, as histórias, as lamúrias e as birras das crianças, alguém (na família) que fala por murmúrios ou por insinuações (e... atormenta), um chefe que reparte aqueles que «vestem a camisola» dos outros com quem amua, uma conta cujo saldo nos prega sustos que se farta, um cadastro de histórias de família que, não tendo a aragem chocante dum CSI, ao contrário dos episódios com que adormecemos, não castiga os inequívocos culpados, e comentários do género: «estás tão bem!» ou «os anos não passam por ti» que atordoam e latejam devagar.
É difícil (muito difícil) gerir uma vida a quatro mãos. Porque raramente colocamos nos nossos horários de todos os dias... conversar. E, muito menos, namorar. Em resumo: damos um tempo. Muitas vezes. Ou, se preferir, tornamo-nos estranhos com um presente comum. E, quando é assim, por mais que todos os casamentos sejam para toda a vida, poucos amores serão para sempre.

2.Qualquer casamento é, realmente, para toda a vida. Mas, então, quando nele se repartem um ou vários filhos, um casamento é para todo o sempre. Mesmo que os pais se separem ou divorciem. Por isso mesmo incomoda-me muito a fórmula: «os meus, os teus e os nossos». Porque, por mais que todos os pais repitam que gostam de todos os filhos da mesma forma, «os nossos» arriscam-se a sentir-se filhos de 1ª, «os meus» (mais ou menos) de 2ª e os «teus» serão... os outros.Ora, eu acho que, no contexto de famílias que se reconstroem, muitos filhos tornam-se (ainda) mais filhos e muitos enteados se sentem (felizmente) filhos, muitos filhos passam a ser (sem que ninguém queira) mais ou menos enteados. Toda esta complexidade (que será estimulante enquanto desafio) atropela, muitas vezes, uma nova relação amorosa. Contra a vontade de todos.Em primeiro lugar, porque por mais que a fórmula «quem meus filhos beija a minha boca adoça» esteja presente dentro de cada um de nós (quando ficamos atentos em relação aos gestos parentais da pessoa com quem compartilhamos, de novo, a nossa vida amorosa, ou da nossa parte em relação aos filhos dela) as crianças são uma entidade reguladora que testa, permanentemente, os pais o que faz com que (por dificuldades de leitura da nossa parte, por reações magoadas ou impulsivas que vamos tendo ou porque elas possam ser instrumentalizadas diante do sofrimento ou da ira de um dos pais) se azedem quaisquer processos de parentificação dos novos membros da sua família. Porque nem sempre a separação dos pais foi enquadrada por gestos esclarecidos que terão poupado uma criança do fogo-cruzado dos ressentimentos, da clivagem de lealdades ou dos episódios infelizes que envergonham ou atormenta os pais. Porque entre a separação dos pais e a entrada duma nova pessoa na vida de cada um podem não ter existido o tempo, as oportunidades e o bom senso que todos quereriam.Em segundo lugar, porque as crianças são jogadas - pelos pais ou pelas respetivas famílias de origem - para acusações tácitas ora de vítimas ora de vilões, com as quais elas não deixam de se sentir confusas e, ao mesmo tempo, engolidas por uma cascata de abandonos que lhes chegam dos protagonistas mais improváveis. Se nesse cenário de sofrimento elegerem um «inimigo público» (de preferência, o novo elemento da família alargada) estão a encontrar uma proteção para o sofrimento que as consome (o que, como se compreende, as segurará, por mais que fissure a nova relação de cada um dos seus pais ou a disponibilidade que essa nova pessoa possa ter para adoçar os seus gestos de parentalidade).Em terceiro lugar, porque deixar de existir «a nossa casa» e passar-se a ter «a casa da mãe» e a «casa do pai» exige um enorme bom-senso de cada um dos pais, no sentido de repartirem o tempo de parentalidade de forma tendencialmente idêntica para que comparticipem, de modo empenhado, em todas as tarefas de parentalidade, e de maneira a não deixarem enviesar os seus gestos parentais por um cuidado tão extremo que quase pareçam medricas.Em quarto lugar, porque se confiar um filho à mãe ou à sogra já é tão diferente, confiá-lo a um estranho que, pior, se transformou no presumível culpado por um divórcio que se vinha arrastando há anos, é uma tarefa terrível, que se torna mais insuportável quando essa pessoa reúne os requisitos de parentalidade que sentimos que nos faltarão.Em quinto lugar, porque a condição económica e a disponibilidade de espaços do pai e da mãe se poderão ter ressentido com o divórcio, o que dá lugar a rivalidades parentais escorregadias e a situações delicadíssimas, quando se trata de gerir os quartos ou as camas das crianças, por exemplo (que introduz clivagens muito grandes que colidem com a intenção, de cada um dos pais, de lutarem por uma paridade de cuidados, quando se trata de gerirem «os meus» e «os teus») ou os tempos que dedicam aos seus filhos (que faz com que muitos enteados tenham mais tempo de um dos pais que os seus próprios filhos, com tudo o que isso representa de fraturante para a nova fratria que se constitui).Finalmente, porque quando se gere a autoridade, os gestos de carinho ou o protagonismo protetor a tentativa de isenção de muitos pais e da sua nova companhia choca com a forma assustada como os filhos os interpretam, o que faz com que uma nova pessoa na relação de um dos pais se empurre a si própria, por excesso de zelo, para um papel omisso, que a transforma em madrasta ou em padrasto, muito mais que em tio ou noutro «pai».É claro que ao surgirem, numa família reconstruída «os nossos filhos» tudo fica mais derrapante: porque faz com que muitas crianças - que se foram sentindo filhas do novo companheiro (ou da nova companheira) de cada um dos pais - se poderão sentir... «despromovidas» diante de um novo bebé; porque é fácil que elas sintam, da parte do seu próprio pai (ou da sua mãe), um conjunto de cuidados tão atentos e tão delicados para com o bebé que as leve sentirem-se um bocadinho enteadas para os seus próprios pais; e porque um novo bebé pode aclarar uma distinção de cuidados tal de um dos pais e da sua nova companhia (em relação aos filhos de um e de outro, que já existam) que, em vez de ser um pequeno Messias, um bebé se transforma - pela forma como fratura as atenções, os cuidados e os carinhos de cada um - no protagonista que faz com que a relação reconstruída dos seus pais comece, irreparavelmente, a desmoronar-se.

3.Qualquer casamento é, realmente, para toda a vida. Porque ocupa muitas memórias e porque condiciona, por mais que se não queira, todos os gestos amorosos que se terão a seguir. Se, quando dele resultam uma ou várias crianças, ele se torna, contra o desejo de muitos pais, para todo o sempre, quando convivem mais do que um casamento e mães ou pais diferentes nos gestos de parentalidade de todos os dias, toda essa complexidade é muito mais exigente. Sê-lo-á mais se existirem «os meus, os teus e os nossos». E, por mais que se compreenda que o coração dos pais não seja tão elástico como só eles desejariam, filhos de 1ª, de 2ª e de 3ª são tudo aquilo que nos impede de ser pais. Hoje, e sobretudo, para sempre.

Escrito por Eduardo Sá, in Pais&Filhos