terça-feira, 18 de novembro de 2014

Telemóvel ou filhos?




           Telemóvel ou filhos? O que é prioritário pode não ser tão óbvio para alguns pais.

“Mãe, tenho uma coisa para te contar?” “Pai olha o desenho que fiz!”. Apesar da insistência da criança, mãe ou pai estão demasiado ocupados a trocar SMS, a falar com um amigo ou a experimentar a aplicação acabadinha de sair e que lhes vai facilitar tanto a vida. Está a tornar-se um hábito em muitas famílias: olhos n
os ecrãs dos telemóveis e tablets e pouca conversa. As interacções entre pais e filhos podem estar a sofrer com o mundo digital ou é ainda possível jantar em família?

Esta e outras questões foram colocadas pela psicóloga clínica Catherine Steiner-Adair no seu livro The Big Disconnect e sublinhadas num artigo que a norte-americana publicou esta semana no site de notícias Quartz, onde fala num “paradoxo parental do momento”.

“Não só as distracções crónicas de tecnologia têm efeitos profundos e duradouros, como as crianças precisam desesperadamente de pais que lhes deêm o que tecnologia não pode: proximidade, interacções significativas com os adultos nas suas vidas”, defendia a autora na apresentação do seu livro lançado em 2013 e para o qual entrevistou mais de mil crianças em fase de creche e outras no ensino básico, preparatório e secundário.

Steiner-Adair admite que a tecnologia veio aproximar familiares que estão a grande distância, através de serviços como o Skype ou as redes sociais, mas a interacção pessoal perdeu terreno, nomeadamente entre pais e filhos. A psicóloga nota no artigo que escreveu no Quartz que “as escolhas que fazemos diariamente sobre o uso de telemóveis e ecrãs quando os nossos filhos estão presentes podem afectar significativamente em todos os aspectos a sua saúde e desenvolvimento”.

Nas entrevistas que fez a crianças e adolescentes, Steiner-Adair ouviu a maioria dos inquiridos afirmarem que os seus pais estavam fisicamente presentes mas emocionalmente distantes, devido à constante ligação aos aparelhos móveis. O resultado, segundo a autora, é claro e tem consequências graves. “Quando largamos tudo para nos virarmos para os nossos telefones estamos a enviar a seguinte mensagem: ‘Por mim está bem ver apenas que estás aqui – não és assim tão importante. A nossa conversa, a nossa proximidade, o nosso relacionamento, nada disso é uma prioridade’. Estamos também a ensinar aos nossos filhos a fazer a mesma coisa”.

A psicóloga alerta que há momentos chave onde o telemóvel ou otablet devem ser postos de lado. Seguindo estes passos, a autora acredita que pais e filhos podem “fazer a diferença” e mudar para melhor a forma como se relacionam.
As manhãs são essenciais para transmitir aos filhos que os seus pais estão calmos e presentes e que o dia vai começar bem. Conselho aos pais: por que não acordar um pouco mais cedo e ver emails ou realizar tarefas online antes de ajudar os filhos a saírem da cama? O mesmo se deve fazer à hora de deitar. “Nada de ecrãs no quarto para ninguém!”, defende a psicóloga.

Ao volante, as mãos devem estar livres para a condução. A regra é universal mas alguns adultos continuam a alternar os olhos na estrada com os olhos nos ecrãs. Steiner-Adair sublinha não só o perigo do acto, mas alerta ainda que os momentos passados no carro devem ser “criativos, calmos e dedicados a conversas com as crianças”. Este conselho serve para quando se vai levar ou buscar os mais novos à escola, por exemplo. Depois de um dia ocupado com aulas e de várias experiências, a maioria das crianças está ansiosa por partilhar tudo com os pais. “É importante ouvir sobre como correu o seu dia e eles ficam melhores quando o podem compartilhar connosco”.

Outro dos momentos importantes para reforçar as ligações familiares são as horas de refeição. Falar sobre como correu o dia, o que aprendeu, os momentos mais emocionantes, devem fazer parte de uma normal conversa à mesa, sem que haja interrupções com toques de telemóvel ou alertas para novas entradas no Facebook.

A tecnologia torna mais próximos os que estão longe mas também afasta quem mais precisa de nós.

Daniel Rocha, in Jornal Público